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Mudança Climática: além do pior cenário imaginado

Janeiro 24, 2008
 

O IPCC declara: o homem é mesmo o grande causador das mudanças no clima. A parte mais difícil é tentar impedi-las

por David Biello

©ISTOCKPHOTO.COM
PLANETA QUENTE: De acordo com as pesquisas mais recentes, a emissão de gases de efeito estufa e o nível dos mares continuam subindo e superando as previsões anteriores.

A mudança climática é “inequívoca” e há 90% de certeza que o “resultado líquido das atividades humanas desde 1750 foi o aquecimento”, escreveu o Painel Intergovernamental DE Mudanças Climáticas (IPCC), composto por mais de 2.500 cientistas e outros especialistas, em seu primeiro relatório sobre a ciência do aquecimento global em 2007. No segundo relatório, o IPCC declarou que o aquecimento provocado pelos seres humanos tem uma influência discernível sobre o planeta, da migração de espécies ao degelo do permafrost (camada de gelo permanente). Apesar dessas conclusões, as emissões dos gases de efeito estufa continuam agravando esse processo, graças à maior queima de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que soluções com uma boa relação custo-benefício não são adotadas, apontou o painel no terceiro relatório.A quarta e última avaliação do IPCC sobre o problema da mudança climática –conhecida como relatório-síntese – combina todos esses relatórios e acrescenta que “o aquecimento poderá levar a alguns impactos abruptos ou irreversíveis, dependendo da taxa e magnitude da mudança climática”. Apesar de os países continuarem debatendo a melhor forma de tratar o assunto, 130 nações, incluindo Estados Unidos, China, Austrália, Canadá e até mesmo a Arábia Saudita, concordaram o relatório.

“Agora os governos exigem, na verdade, que os autores apontem os riscos mais altos e decisivos, devido às conseqüências potencialmente muito grandes”, diz o economista Gary Yohe, um dos principais autores do relatório-síntese do IPCC. “Talvez eles tenham dado ao planeta uma chance de salvar a si mesmo.”

Entre os maiores riscos estão:

Aumento da Temperatura – A esta altura, a continuidade do aquecimento global é praticamente certa (há 99% de probabilidade que ocorrerá), com impactos bons e ruins. No lado positivo, menos pessoas morrerão por causa de baixas temperaturas e a produtividade agrícola aumentará nas áreas mais frias. Os pontos negativos incluem redução da produtividade agrícola nos trópicos e subtrópicos, maior infestação de insetos, redução das reservas de água (causada pelo encolhimento das áreas de gelo), e qualidade do ar cada vez pior nas cidades.

Ondas de Calor – Os cientistas têm mais de 90% de certeza que ondas de calor extremo aumentarão em todo mundo, levando a um maior risco de incêndios florestais, mortes e problemas na qualidade da água, como a proliferação de algas.

Chuvas Pesadas – As estimativas sugerem que eventos de precipitação extrema –como temporais e nevascas – apresentam 90% de probabilidade de se tornarem mais comuns, resultando na piora da qualidade da água e aumento do número de enchentes, dos prejuízos à agricultura, da erosão do solo e do risco de doenças.

Seca – Os cientistas estimam que há mais de 66% de chance de as secas se tornarem mais freqüentes e disseminadas, tornando a água mais escassa, aumentando os riscos de fome causada por quebras de safra e risco ainda maior de incêndios florestais.

Tempestades Mais Fortes – O aquecimento das águas dos oceanos provavelmente aumentará a força dos ciclones tropicais (conhecidos como furacões e tufões), aumentando o risco de morte, ferimentos e doenças entre os seres humanos, assim como a destruição de propriedades e recifes de corais.

Biodiversidade – Até um terço das espécies conhecidas pela ciência pode correr risco de extinção caso as temperaturas médias aumentem em mais de 1,5ºC.

Elevação do Nível dos Mares – O nível dos oceanos do mundo subirá, provavelmente inundando terras baixas, tornando salobra a água doce e causando potencialmente ampla migração das populações humanas das áreas afetadas.

“Com o aumento das temperaturas, a expansão térmica levará a uma elevação do nível dos mares, independentemente do derretimento do gelo”, disse o engenheiro químico Lenny Bernstein, outro autor principal do relatório mais recente do IPCC. “As indicações são de que este fator por si só poderia causar sérios problemas, e que o derretimento das capas de gelo os acelerariam enormemente.”

O derretimento das capas de gelo, que o IPCC explicitamente não incluiu em suas previsões da elevação do nível dos mares, já é observado e pode estar acelerando, segundo uma pesquisa recente que determinou que o derretimento da calota de gelo da Groenlândia já acelerou em seis vezes o fluxo médio do Rio Colorado. A pesquisa também mostrou que o mundo tem emitido consistentemente gases de efeito estufa nos níveis mais altos já projetados, e a elevação do nível dos mares também ultrapassou as projeções do último levantamento do IPCC, feito em 2001.

“Estamos acima da projeção mais alta no momento”, disse o climatologista Stephen Schneider, da Stanford University e também autor do relatório. “O mundo não está nada seguro.”

Outras conclusões recentes incluem:

Aumento da Intensidade de Carbono – A quantidade de dióxido de carbono por carro construído, hambúrguer servido ou objeto vendido estava diminuindo consistentemente até a virada do século. Mas desde 2000, as emissões de CO2 estão crescendo mais de 3% ao ano. Isso se deve em grande parte ao boom econômico na China e na Índia, que dependem do carvão para a produção de energia. Mas as emissões nos países desenvolvidos também começaram a subir, aumentando em 2,6% desde 2000, segundo relatórios apresentados por esses países à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology também argumentaram recentemente que as emissões americanas continuarão aumentando em conseqüência da crescente demanda por energia.

Diminuição da Absorção de Carbono – As florestas e oceanos do mundo estão absorvendo menos CO2 emitido pela atividade humana, resultando em uma elevação mais rápida dos níveis atmosféricos dos gases de efeito estufa. Ao todo, a humanidade emitiu 9,9 bilhões de metros cúbicos de carbono em 2006, ao mesmo tempo em que a capacidade do Atlântico Norte de absorver essas emissões, por exemplo, diminuiu em 50%.

Aceleração dos Impactos – O aumento das temperaturas tem provocado um início antecipado das primaveras no extremo norte e feito espécies de plantas se espalharem para mais longe, ocupando um terreno antes gelado. Enquanto isso, o gelo marítimo do Ártico atingiu uma baixa recorde neste ano, cobrindo apenas 4,11 milhões de quilômetros quadrados e assim superando a mínima anterior de 5,3 milhões de quilômetros quadrados, em 2005.

“A taxa observada de perda de gelo está mais rápida do que qualquer previsão”, disse Mark Serreza, cientista e pesquisador sênior do U.S. National Snow and Ice Data Center em Boulder, Colorado. “Já estamos preparados para outra grande perda no próximo ano. Temos tanto mar aberto no Ártico no momento e ele absorveu tanta energia ao longo do verão que o oceano se aqueceu. O gelo que aparecerá de volta neste outono será fino.”

As conseqüências negativas dessa dinâmica (o gelo branco é substituído por águas escuras, que absorvem mais energia e impedem a formação de mais gelo branco) permanecem mesmo quando aparentemente trabalham a nosso favor.

Por exemplo, cientistas do Instituto Leibniz de Ciências Marinhas da Universidade de Kiel, Alemanha, descobriram recentemente que o plâncton consome mais carbono em concentrações atmosféricas mais elevadas de CO2. “O plâncton ficou enriquecido com carbono”, disse o biólogo marinho Ulf Riebesell, que conduziu o estudo. “Não havia maior presença de plâncton, mas cada célula continha mais carbono.”

Isto pode significar que plantas oceânicas microscópicas podem potencialmente absorver mais carbono emitido na atmosfera. Infelizmente, outra pesquisa (do Woods Hole Oceanographic Institution) mostrou que esse plâncton não chega ao leito marinho em quantidade suficiente para seqüestrar o carbono a longo prazo.

Além disso, esse plâncton carregado de carbono só começa a aparecer depois que as concentrações de CO2 atingem o dobro dos valores atuais – 750 partes por milhão (ppm) na atmosfera em comparação aos cerca de 380 ppm atuais (um nível no qual uma mudança catastrófica pode ser certa) ,– e são menos nutritivos para todos os animais que dependem deles em sua alimentação. “O mecanismo é pequeno demais e tardio demais”, disse Riebesell. “Ao se tornar mais rico em carbono, o zooplâncton precisa comer mais fitoplâncton para atingir a mesmo valor nutritivo” e, conseqüentemente, “ele cresce e se reproduz mais lentamente”.

O IPCC nota que há soluções com boa relação custo-benefício, como a adaptação de construções para que utilizem energia de maneira mais eficiente, mas o Painel diz que elas precisam ser implantadas a curto prazo para evitar um dano ainda maior. “Estamos 25 anos atrasados”, disse Schneider. “Se o objetivo era evitar mudanças perigosas, elas já estão ocorrendo. O objetivo agora é evitar uma mudança muito perigosa.”

Fonte: Scientific American

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